terça-feira, 25 de agosto de 2009

Chama Crioula 2009 - São Lourenço do Sul


Chegamos antes das 10 horas da manhã em São Lourenço do Sul, para o acendimento da chama crioula 2009. E logo na chegada, já podia-se perceber que o evento seria grandioso: a grande quantidade de pessoas caminhando à pé em direção à Fazenda do Sobrado, e os carros estacionados pelas ruas próximas, faziam-nos acreditar que a cidade estava totalmente mobilizada para este encontro.

Ao caminhar pela estrada de chão batido que levava até a porteira da fazenda, imaginei quantas vezes Bento, Netto, Garibaldi, e os demais heróis farrapos, também haviam feito o mesmo caminho, no retorno de alguma batalha. Tal pensamento tornou-se quase real quando, ao passarmos pela porteira, avistamos os lanceiros negros! Sim, eles mesmos... só que estes eram apenas atores, claro, que preparavam-se para entrar à cavalo para o início do teatro ao ar livre.

Chegando à frente do Sobrado, avistamos um palco montado ao lado. Lá estavam prendas vestidas à caráter, gaúchos de bombacha, chapéu e lenço, e algumas pessoas de paletó e gravata. Era o palco das autoridades! Estavam lá os secretários estaduais da Cultura, Mônica Leal – que representou a governadora Yeda Crusius –; do Turismo, Esporte e Lazer, Heitor Gularte; e os deputados federais Henrique Fontana, Fernando Marroni e Pompeo de Matos, o Patrono da Semana Farroupilha 2009, Telmo de Lima Freitas, além de dezenas de prefeitos e secretários municipais de todo o Rio Grande. Na frente do palco, um público aproximado de 5 mil pessoas (segundo a Prefeitura de São Lourenço) assistia aos discursos e à encenação dos atores na frente do Sobrado.

Não era preciso gastar energia na distribuição de panfletos: as pessoas vinham ao nosso encontro para pegá-los. Abrimos a nossa faixa "Rio Grande Independente" para a frente do palco, e somada à nossa bandeira tremulando incessantemente no local, éramos pontos visíveis de qualquer parte da fazenda. E era visível também a curiosidade das autoridades no palco quando abrimos a faixa. Víamos as pessoas esticando o pescoço para ler o que dizia a faixa, comentando com o companheiro ao lado... Jornalistas da região nos pediam para esticar a bandeira para o Sobrado ao fundo para tirar uma foto, como por exemplo o Nauro Júnior da RBS, que publicou uma matéria no seu blog

Logo depois que o Patrono Telmo de Lima e Freitas fez um lindo discurso, pensei comigo: preciso entregar um panfleto pra ele. Assim que houve uma pausa na encenação, corri para a frente do palco e lá de baixo estiquei a mão para ele com um panfleto e um adesivo e disse: “Bom dia, amigo!”. Ele me agradeceu e deu um sorriso. Minha rápida missão estava cumprida, mas para minha surpresa o melhor estava por vir! Todos os secretários e prefeitos que estavam em pé, atrás do Patrono, esticaram a mão me pedindo também um panfleto!!! Todos queriam saber mais sobre aquele movimento que pedia um Rio Grande Indepentente na frente do palco! Foi incrível! Se o evento terminasse ali, naquele momento, já teríamos ganho o dia! Mas o destino nos reservava muito mais ainda!!!

Terminada a encenação, fomos até a frente do Sobrado para tirar uma foto com a faixa estendida. Chegando lá, resolvi espiar pela janela. Foi então que apareceu o Dorotéo Fagundes, que comanda o programa "Gauchesco e Brasileiro", numa rádio de abrangência em todo o sul do Brasil e parte da Argentina. Queria saber quem éramos e fazendo um convite para uma entrevista no estúdio improvisado na sala do Sobrado.

Que honra! Não só por participar do programa, mas também porque conseguiríamos entrar dentro do Sobrado! Sim, a entrada não era permitida, já que o Sobrado é de propriedade particular e não está aberto a visitações.

Faltam-me palavras para descrever a minha sensação ao entrar na sala do Sobrado e ver o piano da Dona Ana intacto (quase sem teclas, é verdade, desgastado pelo tempo), e o retrato na parede de Perpétua (filha do Bento Gonçalves) e Francisco Abreu, casal que também morou lá.

Quase junto conosco, entrou na sala a secretária de Estado, Mônica Leal, representando a governadora Yeda, que antes de nós concederia uma entrevista. Muito simpática, conversou conosco e prometeu que na semana seguinte entregaria à Governadora o presente que entregamos a ela: uma camiseta, junto de um panfleto e um adesivo do RSLivre!

Durante a entrevista, a gente se apresentou, agradeceu a oportunidade, e esclarecemos os objetivos do movimento. Mas o mais incrível mesmo não foi a entrevista em si, tampouco o diálogo franco com a secretária da Yeda. O mais incrível de todo o evento, e que nos deixou com lágrimas nos olhos, foram os relatos de Dona Ivani, a atual moradora da Fazenda do Sobrado.

Dona Ivani, senhora de 70 anos, viúva, simpatissíssima. Aquela típica figura de avó que adora fazer bolo e biscoitos para os seus netos. A comparação com Dona Ana era inevitável! Cruzou por nós na sala, nos cumprimentou e começou a nos contar histórias extraordinárias!

Disse que se mudou para o Sobrado com o marido há 47 anos atrás, sem saber da importância histórica do local. Eles não são descendentes da família de Dona Ana, nem de Perpétua Abreu. Foi então que ela contou que há mais de 40 anos atrás, apareceu um velhinho de 95 anos, chamado Virgílio Abreu. De tão boquiaberto que eu estava, não lembrei de perguntar qual o parentesco do Sr. Virgílio com a família Abreu. Mas pelos cálculos da idade, acredito que ele deve ter sido filho ou neto de Perpétua, e quem sabe pode até ter convivido com Dona Ana. Emocionado ao chegar na fazenda, o velhinho disse que havia morado lá e contou histórias bonitas e malucas sobre a guerra. Dona Ivani pensou: coitado do velhinho, deve estar esclerosado. Deve ter lido alguma história bonita em algum livro e confundiu as coisas.

Passados alguns anos, apareceu uma família no Sobrado, se dizendo descendente dos Abreu, e contando as mesmas histórias do velhinho. Dona Ivani pensou: Opa, alguma coisa então tem de verdade nas histórias que o Sr. Virgílio contou. Foi então que Dona Ivani resolveu pesquisar mais em livros e começou a se dar conta que estava morando no quartel general dos Farrapos!

E foi assim o nosso dia mágico! Dia em que o passado e o presente se encontraram! Foi o dia em que o movimento Rio Grande Livre pisou no chão daqueles que trouxeram a mesma mensagem libertária que trazemos hoje.

Ao sair do Sobrado, a fazenda já totalmente vazia, fomos embora com a sensação do dever mais do que cumprido. E pra finalizar, caminhando sozinhos pela estrada de chão batido, passa um carro por nós nos fazendo sinal de positivo... era o Patrono da Semana Farroupilha, Sr. Telmo de Lima Freitas.

Buenas, pensei... agora não nos falta mais nada! Essa foi pra fechar com chave de ouro!

Escrito por: Marcelo Alves

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